Quando se fala em “cientista”, é comum que o imaginário da maioria das pessoas leve à imagem de um homem com jaleco. Mas não deveria ser assim, pelo menos não para a comunidade da Universidade Estadual de Maringá (UEM), amplamente feminina. Dentre os universitários, as mulheres são maioria na graduação e na pós-graduação, considerando especialização, mestrado e doutorado.
É tentando mudar essa imagem inicial que a Assembleia Geral das Nações Unidas criou, em 2015, o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, com o objetivo de reconhecer o papel fundamental exercido por elas na ciência e na tecnologia. A data visa combater a sub-representação feminina, focando na igualdade de gênero, pois a porcentagem média global de pesquisadoras ainda é de 33,3%, de acordo com a Unesco.
Na UEM, dentre os estudantes de pós-graduação, há 29,22% a mais de mulheres. Na graduação, dentre todos os matriculados, a diferença é de 12,29%. Nos processos seletivos vestibulares, a quantidade de meninas inscritas também é historicamente maior. Em 2025, por exemplo, a diferença foi de 24,40%.
Maria Luiza Moreira Dias Pereira está no quinto ano de Engenharia Mecânica e é a única mulher da turma atualmente. Ela conta que encontrou resistência no início do curso, mas percebe que já houve evolução. “Além do ingresso de meninas ter aumentado, nos projetos a presença é grande. Acredito que nós temos um olhar diferenciado para os projetos científicos, que agrega ainda mais no diálogo com os meninos. Então essa troca proporciona resultados muito diferentes e interessantes.”
No projeto Adam AeroDesign, o qual coordena, a representativa feminina é grande, segundo Pereira. Além das participantes, o projeto sempre mantém líderes, capitãs e coordenadoras mulheres de diferentes cursos de engenharia que projetam aeromodelos para competições nacionais. Com cerca de 40 integrantes, eles se preparam para projetar o aeromodelo de 2026 e levá-lo para a Competição SAE BRASIL AeroDesignSAE BRASIL AeroDesign, no segundo semestre.
No Grupo de Pesquisa em Alimentos Funcionais, liderado pela professora Paula Toshimi Matumoto Pintro, a maioria é de mulheres. Mas, na realidade dos cursos de Agronomia e Zootecnia nem sempre foi assim. A professora conta que, a partir do terceiro ano da graduação em Agronomia, foi a única mulher da turma. “Eu venho de uma geração que tinha preconceito com mulheres no agro, principalmente na parte prática, na condução de tratores, por exemplo. Hoje, isso já mudou. Nos cursos, a quantidade de mulheres chega a 20%; na minha época era de 3%. Além disso, o corpo docente é praticamente equitativo.”
Com uma trajetória de 23 anos como docente da UEM, Pintro atualmente é coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia, que recentemente atingiu o conceito máximo na Avaliação Quadrienal da Capes. Segundo a professora, estar neste espaço de liderança é muito importante para a representativa feminina. “É uma vitória, na verdade. Uma grande conquista, pois nós mulheres batalhamos muito pelo nosso espaço. Eu estou muito feliz na coordenação e por representar a UEM nacionalmente”, afirmou.
Em 2025, Pintro recebeu um reconhecimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) pelo incentivo à inovação tecnológica. Ela não deixa de enaltecer a participação feminina no grupo de pesquisa, composto por estudantes de graduação, pós-graduação e pós-doutorado de diferentes cursos. De acordo com a líder do grupo, dentre os 20 integrantes, há apenas quatro homens.
O reitor Leandro Vanalli comenta a importância da mulher na ciência. “No Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrar uma universidade onde a presença feminina é majoritária, tanto na graduação quanto na pós-graduação, é uma marca incrível para a UEM, é um reflexo de excelência e de uma mudança estrutural na ciência paranaense. Isso significa que as mulheres não estão apenas ocupando espaços, elas estão liderando a pesquisa, a inovação e o pensamento crítico dentro de uma comunidade acadêmica. Um grande e importante avanço.”
Graduação
De acordo com a Diretoria de Assuntos Acadêmicos (DAA), atualmente 15.199 estudantes estão matriculados em cursos de graduação na UEM. Desse total, 8.530 são do sexo feminino (56,12%) e 6.664 do sexo masculino (43,83%), além de cinco classificados em outros/não declarado (0,03%). No período consultado, de 2022 a 2026, o ingresso de meninas foi maior do que o de meninos em todos os anos, sendo que a diferença média é de 15,10%.
Na procura pelos cursos, as meninas também estão na frente, pois são maioria nos processos seletivos da instituição. De acodo com a Comissão Central do Vestibular Unificado (CVU), em uma consulta de dados nos últimos cinco anos, as inscrições de candidatas do sexo feminino superam as do sexo masculino em quase 10 mil, na média. Em 2025, foram 16.904 meninos inscritos e 27.800 meninas.
Inspirada pelo pai, docente de Física na UEM, Maria Luiza Pereira pretende seguir carreira acadêmica e incentivar jovens cientistas: “Os cursos de engenharia, de qualquer ramo da ciência, precisam de representatividade feminina, porque senão o conhecimento fica muito concentrado. Então eu aconselho as meninas a estudarem bastante e ingressarem sem medo na universidade.”
Pós-graduação
Nos cursos de pós-graduação, considerando as matrículas regulares em especialização, mestrado e doutorado, nos últimos cinco anos, o número de mulheres matriculadas também se manteve elevado. Os dados são da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PPG) da UEM. Em 2025, foram 3.049 matrículas do sexo feminino (64,61%) e 1.670 do sexo masculino (35,39%); a diferença foi de 29,22%.
Em 2024, a diferença foi de 30,78%, sendo que foram 3.362 mulheres matriculadas (65,39%) e 1.780 homens (34,61%). Dentre 2021 e 2025, a média foi de 25,16% a mais de mulheres na pós-graduação da UEM. Para a pró-reitora da PPG, Grasiele Scaramal Madrona, “ver que, de forma contínua, as mulheres representam a maioria das matrículas demonstra o avanço da equidade de gênero na ciência e na formação de recursos humanos altamente qualificados. Isso reforça o papel transformador da universidade pública, que amplia oportunidades, promove inclusão e contribui para o desenvolvimento científico e social”.
Apesar de destacar a evolução da participação feminina na instituição, a pró-reitora chama a atenção para a escassez de mulheres em cargos de liderança na universidade, não só hoje como historicamente. “Na PPG, desde 1988, eu sou apenas a terceira pró-reitora. Então temos muitas mulheres, mas elas ainda precisam chegar às lideranças”, ressaltou.
Paula Pintro apresenta com orgulho as mulheres que fazem parte de seu grupo de pesquisa e incentiva meninas a ingressarem nos cursos ligados ao agronegócio e investirem na ciência. Para ela, o que falta para o número de mulheres que fazem pesquisa crescer ainda mais é conhecimento sobre os campos de atuação e a realidade dos cursos. No PPZ, a coordenação-adjunta também é feminina, liderada pela professora Tatiana Carlesso dos Santos.
RANKING - A participação feminina da UEM também é destaque nacional. Dados do Leiden Ranking, elaborado pelo Centro de Estudos em Ciência e Tecnologia (CWTS) da Universidade de Leiden, na Holanda, demonstram que a UEM ocupa o primeiro lugar do Brasil em produção científica liderada por mulheres. Do total de projetos de pesquisa, 55% têm participação feminina, seja de docentes ou estudantes.
(Mônica Chagas/Comunicação UEM)