No final de janeiro, os pesquisadores coletaram os últimos ovos que formaram a 17ª geração de Tilamax, linhagem de tilápias-do-nilo desenvolvidas na Estação Experimental de Piscicultura da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no distrito de Floriano. A reprodução ocorre uma vez por ano, entre dezembro e janeiro. O próximo ciclo reprodutivo dirigido se repetirá no verão 2026/2027.
A coleta integra o Programa de Melhoramento Genético de elite voltado ao aprimoramento da tilápia-do-nilo no Brasil, conduzido pela UEM, com foco em alto rendimento de filé, crescimento acelerado, menor proporção de cabeça e maior largura de lombo.
Segundo o melhorista Carlos Antonio Lopes Oliveira, coordenador da equipe, o avanço genético é contínuo. “O ganho médio é de cerca de 2% por geração dentro do núcleo de estudo, o que representa aproximadamente 35% desde a geração original. Já nos materiais comerciais, derivados das matrizes Tilamax, esse ganho pode chegar a 15% por geração”, explica.
Na prática, isso significa peixes que atingem o peso de abate mais rapidamente. Se antes eram necessários cerca de 14 meses para alcançar 800 gramas, hoje esse período pode ser reduzido entre 25% e 30%, dependendo do sistema de cultivo.
A pesquisa também busca animais mais adaptados ao clima tropical, tanto para criação em tanques-rede quanto em viveiros escavados. O crescimento acelerado reduz o tempo de permanência no campo e, consequentemente, os custos com ração, manejo e insumos sanitários, agregando valor ao produto final. Esses ganhos tendem a refletir diretamente no preço para o consumidor.
De acordo com dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), cerca de 70% da tilápia produzida no Brasil possui DNA Tilamax, em linhagem pura ou cruzada. A tecnologia também já foi exportada para Moçambique, Uruguai, Cuba, República Dominicana e Bolívia.
Melhoramento Genético
Para alcançar os resultados atuais, o processo começa com a seleção dos animais que darão origem à geração seguinte, por meio do acasalamento dirigido.
Na Estação Experimental de Floriano, são utilizados 120 hapas (tanques-rede de tela), onde, alternadamente, é alojado um casal de peixes. Em seis semanas, cada dupla pode produzir até 500 ovos.
O método explora a variabilidade genética natural da espécie. Primeiro, os animais são avaliados individualmente quanto ao desempenho produtivo e à velocidade de crescimento até o peso de abate. Depois, são organizados em pares para o acasalamento planejado.
Outro cuidado importante é evitar cruzamentos entre parentes próximos. Para isso, é implantado em cada peixe um microchip com informações individuais registradas desde a primeira geração. “Conhecemos toda a estrutura genealógica de 16 gerações para trás. Sei quem é o tataravô do animal que está acasalando hoje porque utilizamos um microchip com a informação individual de cada um”, revela o professor Carlos Oliveira.
Os ovos coletados são encaminhados à incubadora, que simula as condições naturais. Eles permanecem em movimento constante para evitar que grudem entre si, o que poderia comprometer a sobrevivência. Após a eclosão, parte das larvas permanece no programa de melhoramento genético e outra é destinada ao setor produtivo, como matrizes.
Cadeia produtiva
Da larva ao abate, a genética Tilamax percorre toda a cadeia produtiva com controle de qualidade. Nesse percurso, piscicultores trabalham nas etapas de produção de matrizes, alevinos, juvenis, engorda e abate.
Piscicultor Alisson Martins
O piscicultor Alisson Martins trabalha na recria de tilápias juvenis, em Marialva-PR. Ele recebe alevinos com cerca de 1 grama e realiza o manejo até que atinjam aproximadamente 20 gramas, fase em que os peixes se tornam mais resistentes à predação e apresentam maior taxa de sobrevivência. A cada 30 a 40 dias, a propriedade movimenta cerca de 250 mil juvenis.
Alisson atua exclusivamente com a genética Tilamax e destaca o impacto direto do melhoramento nos resultados econômicos. “A diferença aparece no crescimento e na uniformidade dos peixes. Isso dá mais previsibilidade e segurança para quem está na ponta da cadeia”, afirma.
Segundo o produtor, a rastreabilidade também é um diferencial. “Conhecer a linhagem dos peixes traz mais confiança na hora de comercializar”, acrescenta.
Além da recria, a família investiu em pesca esportiva no sistema pesque e solte. Embora os peixes do lago não sejam destinados ao consumo, quem deseja experimentar tilápias com genética Tilamax encontra porções apetitosas no restaurante da propriedade. “Hoje o filé de Tilamax representa de 80 a 90% de todo o prato consumido aqui”, diz o produtor, fechando o ciclo que começa nos laboratórios da universidade.
A expectativa é ampliar ainda mais os resultados nas próximas gerações. “Queremos continuar produzindo indivíduos mais robustos e adaptados às nossas condições, além de ampliar a oferta de matrizes para pequenos e grandes alevinocultores, garantindo competitividade no mercado de tilápia”, projeta Carlos Oliveira.
Primeira geração
O projeto teve início em março de 2005, quando a UEM recebeu do WorldFish Center, da Malásia, 30 famílias da linhagem Genetically Improved Farmed Tilapia (GIFT), com 20 animais cada, totalizando 600 peixes. A partir desse material foi estruturada a iniciativa que hoje integra o projeto PeixeGen, do Departamento de Zootecnia.
Desenvolvido há quase duas décadas na Estação Experimental de Piscicultura, que atua desde 1996 em pesquisas voltadas à área envolvendo estudantes de graduação, mestrado e doutorado, o trabalho firmou a unidade como referência em seleção aquícola na América Latina. Localizada a cerca de 20 quilômetros de Maringá, no distrito de Floriano, a estrutura abriga o primeiro centro público latino-americano dedicado ao aprimoramento da tilápia-do-nilo.
As avaliações são realizadas em 20 tanques de 6 m³, onde representantes de 50 a 90 famílias são analisados anualmente, totalizando cerca de 3 mil peixes. De cada grupo, são selecionadas as quatro melhores fêmeas e os dois melhores machos, que formarão a geração posterior.
(Adriana Cardoso/Comunicação UEM)