Pouco mais de 1,6 milhão de indígenas vivem atualmente no Brasil, de acordo com o Censo Demográfico de 2022. Apesar de estar aqui há muito mais tempo do que se tem registro, essa população era considerada relativamente incapaz pela legislação brasileira e submetida à tutela do Estado até a Constituição de 1988. Com a mudança e a ampliação da lei, os povos indígenas passaram a reivindicar seu espaço no ensino superior.
Em 2001, o Paraná tornou-se pioneiro ao instituir reserva de vagas para indígenas nas universidades públicas estaduais, por meio da Lei Estadual nº 13.134/2001. Hoje, o Vestibular dos Povos Indígenas do Paraná é um processo seletivo anual que considera as especificidades dessa sociedade e reserva seis vagas em cada uma das universidades estaduais para este público, além de dez vagas na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
O primeiro processo seletivo após a lei, em 2002, teve 61 candidatos. No ano passado, foram mais de 500 inscrições. A cada ano, uma instituição superior fica responsável por coordenar o vestibular. Em 2025, a organização foi da UEM. A professora Isabel Cristina Rodrigues, integrante da Comissão Universidade para os Indígenas (Cuia) da UEM, conta que os processos da educação escolar indígena foram avançando, assim como a procura pelo ensino superior.
“À medida que eles foram se escolarizando na educação básica, foram, paralelamente, reivindicando o ensino superior. Então o aumento do número de candidatos não se deve apenas ao trabalho que as comissões realizam, mas à luta que eles foram empreendendo, pois conforme se formavam na educação básica, precisavam da educação superior para ocupar os postos de serviço que existem nas Terras Indígenas”, explica Rodrigues.
A UEM é uma das instituições mais procuradas no processo seletivo e a que mais forma profissionais indígenas no estado, apesar de ser a mais distante das Terras Indígenas. De acordo com a Diretoria de Assuntos Acadêmicos (DAA), atualmente há 106 estudantes matriculados que se declaram indígenas; desses, 47 estão em cursos de graduação presenciais e 59 em cursos de graduação ofertados a distância. Ao todo, 27 ingressaram pelo Vestibular dos Povos Indígenas.
Rodrigues explica que a UEM já desenvolve projetos de ensino, pesquisa e extensão com essa população desde 1996. “Essa aproximação desperta interesse, e atenção por uma outra forma de vida que é diferente daquela dos não indígenas. Além disso, abre os olhos das pessoas para o fato de que são povos indígenas, continuarão sendo sempre povos indígenas, vivendo como nós, mas sendo como eles são.”
Outro destaque vai para os câmpus regionais, que também atraem estudantes indígenas pela proximidade com seus territórios. O curso de Licenciatura em História, no Câmpus Regional do Vale do Ivaí (CRV), é um exemplo. No último processo de vagas remanescentes, cerca de 17 estudantes ingressaram na UEM para a graduação em Ivaiporã. O local fica próximo às aldeias de Ivaí, em Pitanga, e Faxinal, em Cândido de Abreu.
O mesmo ocorre com cursos ofertados pelo Núcleo de Educação a Distância (Nead) da UEM, pela proximidade entre os polos de apoio presenciais e as Terras Indígenas. Segundo a coordenadora da Cuia estadual, Maria Christine Berdusco Menezes, a presença desses estudantes movimenta os câmpus e polos de apoio e oferece a oportunidade de um processo de interculturalidade.
O papel da Cuia
A Comissão Universidade para os Indígenas (Cuia) deu os primeiros passos em 2001, de forma temporária, quando o Paraná iniciou a organização para o vestibular. Com o passar dos anos e o fortalecimento das políticas públicas, a Cuia também assumiu o acompanhamento dos estudantes indígenas dentro das universidades.
A Cuia estadual é composta por três representantes de cada uma das sete universidades estaduais e da UFPR, por meio de um convênio com o Governo do Estado. Ao todo, são 32 integrantes. Além disso, todas as instituições possuem suas próprias comissões. Menezes destaca que “a equipe da UEM é multidisciplinar e se encarrega de pensar, de pesquisar e de fomentar a educação escolar indígena também no ensino superior”.
O trabalho da equipe da UEM envolve, principalmente, a permanência estudantil. O aluno que ingressa pelo Vestibular dos Povos Indígenas tem direito a um auxílio, além disso a Cuia busca acompanhar a trajetória acadêmica dos estudantes e garantir atendimento psicossocial, ambulatorial e psicológico. “Nós procuramos dar esse respaldo, porque se esses estudantes não estiverem bem, fisicamente e psicologicamente, eles não conseguirão, assim como qualquer outra pessoa, ter uma trajetória que seja eficaz”, afirmou Menezes.
VESTIBULAR 2026 - A 26ª edição do processo seletivo está com inscrições abertas até 30 de junho. Este ano o vestibular está sendo organizado e executado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em parceria com a Comissão Universidade para os Indígenas (Cuia). As provas estão previstas para o dia 27 e 28 de setembro e serão realizadas nas Terras Indígenas ou em polos específicos em duas etapas: prova oral e prova de conhecimentos gerais, composta por uma redação e 40 questões objetivas, com cinco questões de cada uma das disciplinas: Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna (Inglês ou Espanhol) ou Língua Indígena (Guarani ou Kaingang), Biologia, Física, Geografia, História, Matemática e Química. O link de inscrição e as demais informações estão disponíveis no site da UEPG.
(Mônica Chagas/Comunicação UEM)