O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Ecologia de Água Doce, Impactos e Conservação (INCT Nupélia) foi lançado oficialmente na quarta-feira (10). A programação teve início com uma visita à Base Avançada de Pesquisas do Nupélia, em Porto Rico, seguida pela solenidade oficial na Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Pesquisadores, gestores públicos, representantes de instituições parceiras e moradores da região participaram do evento. Também estiveram presentes o diretor do Centro de Tecnologia (CTC), Edwin Cardoza; a secretária de Meio Ambiente de Porto Rico, Ludimila Soares; o vereador Mário Verri representando o diretor-geral da Itaipu Binacional; e Carlos Mariucci, representando o deputado federal Elton Welter.
Durante a cerimônia, o reitor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Leandro Vanalli, destacou o orgulho da universidade pela trajetória do Núcleo de Pesquisas em Limnologia, Ictiologia e Aquicultura (Nupélia) e ressaltou a capacidade do núcleo de transformar conhecimento científico em benefícios para a sociedade. “Esse é o papel do Nupélia na história: pesquisar, aplicar, entender e transformar. Em nome da UEM, quero dizer do nosso orgulho de termos o Nupélia como integrante da nossa amada Universidade Estadual de Maringá”, afirmou.
Financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o instituto é coordenado pela UEM e reúne 108 pesquisadores vinculados a instituições brasileiras e de outros 14 países.
O projeto tem como principal área de estudo o trecho de aproximadamente 250 quilômetros do rio Paraná entre a Usina Hidrelétrica de Porto Primavera e a foz do rio Paranapanema, considerado o último grande trecho do alto rio Paraná que ainda corre livre de barragens em território brasileiro.
O coordenador do INCT Nupélia, Ângelo Antônio Agostinho, explica que o projeto concentra esforços em uma região estratégica para a conservação. “Embora com abrangência nacional, o foco dos estudos será a planície de inundação do Alto Rio Paraná, uma área com rica biodiversidade, abrigada por várias unidades de conservação e rios ainda livres de represas”, ressalta.
Banco de pesquisas
O INCT Nupélia inicia suas atividades apoiado em uma robusta base de dados construída ao longo de quase 26 anos pelo Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD), que também integra o Nupélia.
Segundo o coordenador do PELD, Ricardo Takemoto, os dois projetos atuarão de forma complementar.“O PELD já é desenvolvido há mais de 25 anos. Muitos dos conhecimentos adquiridos serão utilizados nos estudos do INCT. São projetos que vão caminhar em parceria. O PELD ajudou a estruturar o INCT. Com todos os conhecimentos adquiridos, nós vimos a necessidade de definir alguns temas que serão estudados agora no instituto”, disse.
Equilíbrio ambiental
Os estudos irão investigar os efeitos dos reservatórios hidrelétricos, das espécies invasoras e das mudanças climáticas sobre os ecossistemas aquáticos e as populações que dependem diretamente do rio Paraná.
Segundo a coordenadora-geral do Nupélia, Susicley Jati, o instituto tem como característica a integração entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros em torno de desafios estratégicos para o Brasil. “O INCT é uma grande rede de pesquisa no país e promove essa interação entre pesquisadores de todo o Brasil e pesquisadores estrangeiros. O principal objetivo é gerar novas tecnologias e dar suporte à formulação de políticas públicas que contribuam para a melhoria da qualidade de vida das populações locais e de toda a região, por meio da manutenção da diversidade e dos serviços ecossistêmicos”, destaca.
Ela acrescenta que pesquisas desenvolvidas pelo Nupélia já demonstram como as alterações no regime natural do rio afetam espécies de interesse econômico.
“O fato de o nível do rio estar sendo regulado pelos reservatórios influencia, por exemplo, a migração e a reprodução de espécies muito importantes economicamente, como dourado, pintado e curimba. A cheia dispara um gatilho que faz essas espécies migrarem para se reproduzir e manter o estoque pesqueiro, impulsionando toda a rede de turismo e pesca esportiva da região”, explica.
Essa realidade impacta diretamente quem depende da pesca para sobreviver. Carlos Alberto Teixeira, pescador profissional há décadas em Porto Rico, relatou as dificuldades enfrentadas após as transformações ocorridas no rio. “A pesca foi mudada pelas barragens feitas no rio Paraná. Hoje, para o pescador profissional, viver só da pesca é difícil. O que se consegue é muito pouco para sobreviver”, afirmou.
Para complementar a renda, ele adaptou a embarcação para o transporte de turistas. Ainda assim, vê com esperança o trabalho desenvolvido pelos pesquisadores. “Tudo que vem de uma pessoa estudada tem tendência de melhorar para o pescador. Talvez a gente esteja fazendo alguma coisa errada ou possa melhorar um plano de manejo. Mais conhecimento pode ajudar”, disse.
Susicley acredita que a produção científica pode colaborar para a construção de soluções equilibradas. “Os nossos estudos têm mostrado de que forma podemos contribuir para que políticas públicas sejam desenvolvidas e para que a gente consiga conciliar o funcionamento do ecossistema, a preservação da biodiversidade, a garantia dos serviços ecossistêmicos e a qualidade de vida e a diversidade social e econômica da região”, afirma.
Além das pesquisas ecológicas, o projeto prevê estudos sobre a realidade social, econômica e cultural das comunidades ribeirinhas, especialmente em relação à pesca e ao uso sustentável dos recursos naturais.
As informações e os resultados das pesquisas também serão compartilhados com a população, detalha Susicley. “Nós desenvolvemos ações de educação ambiental para mostrar tudo o que essa área tem e como ela funciona. Queremos que cada pessoa da comunidade conheça melhor o ambiente onde vive. Também promovemos cursos de capacitação para o funcionalismo público, comerciantes e profissionais que trabalham diretamente com o turismo. O desejo é que, ao final de cinco ou dez anos desse projeto, cada cidadão da região consiga conhecer, compreender e falar melhor sobre o ambiente onde vive”, destaca.
Entre as metas do instituto está a realização de cinco reuniões públicas na Base Avançada do Nupélia, em parceria com o Consórcio Intermunicipal da APA Federal do Noroeste do Paraná (Comafen) e o Consórcio Intermunicipal para Conservação do Remanescente do Rio Paraná e Áreas de Influência (Coripa), com o objetivo de fortalecer o engajamento e a mobilização colaborativa em prol da sustentabilidade regional.
(Adriana Cardoso/Comunicação UEM)