Há dois anos, a dona de casa Silvana de Rezende foi diagnosticada com a doença de Von Willebrand, um distúrbio que compromete a coagulação sanguínea e provoca episódios frequentes de sangramento. Desde então, recebe regularmente o fator VIII, medicamento fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio do Hemocentro Regional de Maringá.
Após treinamento da equipe do ambulatório, Silvana aprendeu a fazer a autoaplicação em casa e hoje utiliza duas doses por semana. "Para mim foi um alívio muito grande. Eu pensei: agora tenho a possibilidade de viver normalmente. Isso aqui é vida. Sem esse medicamento, os sangramentos voltam e podem trazer consequências muito graves", relata.
O fator VIII, utilizado no tratamento de Silvana, faz parte de um grupo de medicamentos de alto custo produzidos e distribuídos pelo SUS. Outro detalhe em comum é que esses remédios têm, em sua composição, o plasma humano excedente das doações de sangue.
Da doação ao medicamento
Quando se pensa em doação de sangue, geralmente se imagina bolsas destinadas a vítimas de acidentes, pacientes em cirurgias ou pessoas em tratamento médico. O que muita gente não sabe é que parte dessas doações também pode se transformar em medicamentos.
O caminho percorrido pelo sangue até se transformar em remédio envolve diversas etapas técnicas. No Hemocentro Regional de Maringá, o processo entre a coleta e o congelamento das frações sanguíneas leva cerca de cinco horas.
Segundo a técnica de laboratório Maria Heloisa Paiva, “após a coleta, as bolsas passam por análise, homogeneização e centrifugação. Em seguida, ocorre o fracionamento dos hemocomponentes”, explica.
Durante o processamento, cada etapa exige cuidados rigorosos para garantir a qualidade dos componentes. Em uma delas, inclusive, as bolsas recebem uma espécie de "massagem" para otimizar a produção de plaquetas. "Eu estou massageando para conseguir um concentrado maior de plaquetas", conta a técnica de laboratório Lívia Ramalho.
No fracionamento, o sangue é dividido em hemácias, plaquetas, crioprecipitado e plasma. Enquanto parte dessas frações é destinada diretamente aos pacientes que necessitam de transfusões, o plasma excedente segue outra direção. O material é enviado para a Hemobrás, empresa vinculada ao Ministério da Saúde responsável pela produção de hemoderivados.
O diretor do Hemocentro Regional de Maringá, Gerson Zanusso, relata que cerca de 70% das bolsas de plasma processadas na unidade são encaminhadas para a produção de medicamentos. “O aproveitamento integral do sangue amplia significativamente os benefícios de cada doação. Uma bolsa de sangue, uma doação, salvam até quatro vidas. Com uma bolsa produzimos quatro produtos diferentes, cada um destinado para um tipo de tratamento", destaca.
Somente em 2025, o Hemocentro Regional de Maringá encaminhou 8.991 bolsas de plasma para esse processo, uma média de aproximadamente 750 bolsas por mês.
Entre os medicamentos produzidos estão os fatores VIII e IX de coagulação, utilizados no caso das hemofilias A e B, além da albumina e da imunoglobulina, empregadas em dezenas de condições clínicas, como doenças hepáticas, queimaduras graves, imunodeficiências e enfermidades autoimunes. O tratamento de pacientes com hemofilia é realizado exclusivamente pelo SUS. Atualmente, cerca de 70 mil brasileiros são beneficiados pelos fármacos fabricados com plasma humano.
Conhecimento salva vidas
A informação de que o sangue doado também contribui para a fabricação de medicamentos ainda é novidade para muitos doadores. A vendedora Rosângela do Nascimento é doadora recorrente, mas só descobriu isso durante a reportagem. "Não sabia. Que legal!", reagiu ao saber do destino do plasma.
Depois de conhecer todo o processo, ela garante que pretende continuar contribuindo. "Agora vou doar mais ainda. Tem muita gente que precisa. Isso dá ainda mais vontade de ajudar nessa grande batalha pela vida."
A promotora de vendas Tatiane Prudêncio também se surpreendeu com a notícia. "Não sabia. É a primeira vez que eu doo sangue", contou. Ao final da visita ao Hemocentro, saiu decidida a retornar regularmente. "Agora mais do que nunca. Vamos continuar doando e fazendo campanha também."
Para quem depende desses medicamentos diariamente, cada doação faz diferença. "Quem tem possibilidade de doar tem que fazer. Você não sabe quem está ajudando, mas está ajudando alguém a continuar vivendo. Eu agradeço todos os dias aos doadores", conclui Silvana.
Como doar
Para doar sangue, é necessário ter entre 16 e 69 anos. Menores de idade devem comparecer com pais ou responsável legal e precisam de autorização para doar (o responsável deve acompanhar o processo). Homens são habilitados a doar a cada dois meses, enquanto mulheres, a cada três meses, num total de três doações por ano.
O doador de sangue deve pesar no mínimo 50kg e comparecer à doação bem alimentado e hidratado. É recomendado evitar bebidas alcoólicas e alimentação gordurosa antes da doação. No momento da apresentação, o potencial doador, que passará por triagem clínica para ser considerado apto, deve portar documento oficial com foto (RG, carteira do conselho profissional, carteira de trabalho, passaporte ou Carteira Nacional de Habilitação - CNH).
Serviço:
Hemocentro da Universidade Estadual de Maringá.
Endereço: Avenida Mandacaru, 1600.
Telefone: (44) 3011-9400 ou (44) 3011-9495.
Mais informações no site oficial do Hemocentro, na aba doação de sangue.
(Adriana Cardoso/Comunicação UEM)