Foi por uma indicação de um professor para participar de um curso de 40 dias no Centro de Referência Hélio Fraga (CRPHF), no Rio de Janeiro, que a jovem pesquisadora e docente da Universidade Estadual de Maringá (UEM) Rosilene Fressatti Cardoso conheceu o que seria sua paixão profissional por toda a vida: os estudos a respeito da tuberculose. Ela estudou a doença mais de perto por meio de um curso na instituição de destaque ligada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ao Ministério da Saúde, do Governo Federal, e voltou a Maringá cheia de novas ideias, fundamentais para desenvolver os primeiros estudos sobre a doença na universidade - e no município.
Rosilene é pioneira nos estudos de tuberculose em Maringá. Aposentada na Universidade em dezembro de 2025, embora continue atuando na pós-graduação, ela foi admitida na UEM em 1985. Dois anos depois, foi orientada a participar do curso no recém-criado Centro de Referência Professor Hélio Fraga, em 1987. O Centro foi criado em 1984 por uma necessidade do Estado brasileiro: com a Campanha Nacional de Combate à Tuberculose, o SUS precisava de um centro nacional de referência nos estudos contra a doença e outras pneumonias, com destaque para apoiar iniciativas governamentais nacionais em saúde pública. Rosilene estava, portanto, no local certo e na hora certa.
“O curso foi voltado a diagnóstico de tuberculose, testes com fármacos anti-tuberculose e outros assuntos. De volta a Maringá, comecei a trabalhar com isso e a montar o setor de Micobactérias dentro do laboratório de Microbiologia Clínica, no Departamento de Farmácia e Bioquímica/DFB (que, depois, teve o nome alterado para Departamento de Análises Clínicas/DAC e, agora, é Departamento de Análises Clínicas e Biomedicina/DAB)”, explicou.
Assumindo os diagnósticos via SUS
Com 11 anos de docência na universidade, Rosilene recebeu a notícia, em 1996, que o setor que criou dentro do Laboratório de Microbiologia Clínica assumiria todos os exames da rede de diagnósticos para tuberculose via SUS. Naquele momento, ainda no mesmo ano, cuidou da implantação do Laboratório de Diagnóstico de Tuberculose e Hanseníase, uma área dentro do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Análises Clínicas (LEPAC) com funcionamento via SUS e também particular.
Desde esse momento, o laboratório criado por Rosilene é responsável pelos exames e pelo acompanhamento dos testes diagnósticos de pacientes com tuberculose. Por ser uma doença de notificação compulsória, o Governo Federal, através da rede nacional de saúde e em parceria com estados e municípios, deve monitorar, por meio dos órgãos competentes, pacientes de tuberculose, bem como possíveis infectados, ou seja, pessoas que conviveram com os pacientes e que podem infectar outros indivíduos.
Hoje em dia, o Laboratório de Diagnóstico de Tuberculose e Hanseníase funciona com quatro professores, três deles na ativa e Rosilene, um profissional Farmacêutico e um técnico de laboratório para atender as demandas de exames.
Na pesquisa, o Laboratório de Micobatérias, que está ligado a duas pós-graduações da UEM, participam quatro professores, três deles na ativa e uma aposentada (Rosilene), além de alunos de pós-graduação (mestrandos e doutorandos), estudantes de Iniciação Científica (IC), bolsistas e não-bolsistas. “Em média, nosso laboratório atende 36 estudantes somente na pesquisa. Desde 2023, já formamos mais de 40 mestres e 20 doutores, fora os que ainda estão concluindo”, ressaltou, lembrando do legado, também, no ensino e na pesquisa.
Tuberculose: 40 anos depois
Quando Rosilene iniciou na área, os estudos sobre tuberculose no Brasil passavam por mudanças incentivadas pelo contexto brasileiro. Com a inserção da vacina BCG no calendário vacinal de bebês em 1976, houve uma grande “força tarefa” para o combate à doença, que, apesar de ter séculos de existência e muitos mitos ao seu redor, ainda inspirava cuidados e trazia desafios aos pesquisadores, assim como hoje. Ao longo de toda a década de 1980, as campanhas nacionais de vacinação (além da BCG, a de poliomielite) ganharam força.
Hoje em dia, décadas depois, o que mudou? A percepção social sobre a doença é diferente? Rosilene explica que, em números, até a pandemia de COVID-19, o Brasil estava reduzindo paulatinamente a incidência da doença. Após a pandemia, contudo, houve uma regressão nos resultados (ou avanço nos números de casos). “Estamos com uma média de 39,7 casos por 100 mil habitantes, no Brasil; no Paraná, esse índice fica em 20 por 100 mil habitantes.”
A doença tem cura e o diagnóstico e o tratamento é gratuito oferecido pelo SUS em todo o Brasil. O grande desafio é que o tratamento não pode ser interrompido, algo bastante difícil em muitos casos, já que o tempo necessário para o tratamento completo é seis meses. “O paciente não pode interromper o tratamento, que consiste na administração de quatro fármacos”, explicou, referindo-se à Rifampicina (R), Isoniazida (H), Pirazinamida (Z) e Etambutol (E).
A probabilidade de cura é de 95%, quando o paciente consegue chegar até o fim do tratamento, após os seis meses. Em caso de interrupções no tratamento, a doença pode voltar e ainda ser resistente aos medicamentos utilizados anteriormente.
Outro grande esforço do profissional de saúde é buscar os contatos do doente. Rosilene explica que a probabilidade de um doente ter infectado outros com tuberculose, seja em casa ou no trabalho, sempre existe. “Os serviços de saúde e vigilância devem procurar esses contatos do doente para detectar outros doentes e a possibilidade de indivíduos que foram infectados e não manifestam a doença (indivíduos com Infecção Latente por Tuberculose - ILTB). Na situação de indivíduo infectado, o tratamento é diferente do da doença em si, pois (o indivíduo) é um portador da bactéria, que não desenvolveu a doença ainda, mas poderá desenvolver e se tornar um doente potencial transmissor da doença”, avaliou.
Ainda existem os casos em que pacientes são tratados e não reagem aos medicamentos padrões. Nesses casos, é necessária a realização de culturas e antibiogramas. “Isso o laboratório da UEM também faz com alta tecnologia”, encerrou a professora.
(Willian Fusaro/Comunicação UEM)